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sábado, 28 de junho de 2008

'Invenção' de tocas permitiu primeiro grande salto evolutivo dos animais




Eis um pequeno paradoxo: como descendente de uma longa linhagem de pescadores, aprendi desde cedo a ver as minhocas com um grau extra de respeito. Sem elas, afinal, a quantidade de lambaris do Mogi-Guaçu que eu teria devorado (com cabeça e tudo) ao longo da minha infância seria bem menor. Meu avô materno transformou metade do jardim da minha avó num viveiro para os seus anelídeos e, enquanto escolhia as melhores candidatas a isca, costumava relembrar a importância dos bichinhos para a fertilidade do solo, ao torná-lo mais arejado e mais rico em matéria orgânica.

Meu avô certamente não sabia, mas as primeiras observações científicas sobre esse papel ecológico fundamental das minhocas vieram de Charles Darwin, o pai da teoria da seleção natural, no último livro que o sábio de Down publicou na vida: Sobre a Formação de Montículos Vegetais por Meio da Ação de Minhocas, com Observações sobre seus Hábitos. (Livros do século 19 ainda não tinham incorporado o conceito “título curto vende mais”.) O próprio Darwin ficaria surpreso ao ver seus estudos minhoquísticos aplicados a um dos maiores mistérios evolutivos da sua (e da nossa) época, a chamada Explosão Cambriana. Uma hipótese intrigante propõe que esse evento, provavelmente a maior expansão de diversidade da história da vida animal, teria se dado por obra e graça de bichinhos como as minhocas, que inventaram... as tocas escavadas. A variedade estonteante de vertebrados, insetos, moluscos e crustáceos que vemos por aí hoje seria, em grande parte, conseqüência dessa “tecnologia” rudimentar.

Antes de explicar por que essa proposta aparentemente doida até faz sentido, vale a pena deixar um pouco mais clara a enormidade da Explosão Cambriana. Embora os paleontólogos tenham alguns problemas para datar o evento com precisão, é possível dizer, grosso modo, que ele se estendeu entre 540 milhões e 530 milhões de anos atrás, durante o período Cambriano (daí o nome). A palavra “explosão” também indica um evento relativamente repentino diante do passo em geral modorrento seguido pela evolução dos seres vivos.

Não é que não existissem animais antes da Explosão Cambriana. Fósseis com até 600 milhões de anos de idade documentam a existência de criaturas vagamente parecidas com corais, águas-vivas ou anêmonas modernas, ou outros seres ainda mais estranhos, sem analogia nenhuma com o que existe hoje. O que acontece é que, durante a explosão, todos os tipos “básicos” de animais modernos foram “inventados” (de forma, é claro, inconsciente e guiada pela seleção natural) em poucos milhões de anos.

Antes dela, não havia artrópodes (insetos, crustáceos, aracnídeos); depois havia. Não havia cordados (o grupo mais amplo que inclui a nós, os vertebrados); depois havia. E, de quebra, surgiram criaturas ainda mais estranhas e inclassificáveis, membros de grupos de vida curta que só teriam florescido na Explosão Cambriana. (Na imagem que abre esta coluna, você pode ver o Anomalocaris, que pode ter sido um protocrustáceo ou um desses bichos inclassificáveis. Abaixo, temos o Pikaia, aparentemente um ancestral dos cordados, ou seja, nosso vovô.)





Diferença ecológica
Há mais uma diferença importante entre os mundos pré-explosão e pós-explosão. Trata-se da variedade de tamanhos e papéis ecológicos (grandes predadores, pequenos predadores, herbívoros e carniceiros, entre outros) que a reviravolta evolutiva trouxe. Isso levou vários paleontólogos a postular que o “gatilho” do evento teria sido a invenção da caça, por assim dizer. Quando alguns animais primitivos aprenderam a devorar ativamente seus competidores, outros responderam criando armaduras (como a casca dos crustáceos), que foram contra-atacadas com mecanismos sofisticados como mandíbulas e apêndices de agressão – uma espiral de golpes e contragolpes suficiente para estimular a diversidade de formas, na plenitude do tempo.

Essa idéia explica, ao menos em parte, o que aconteceu, mas pode ser que ela deixe de lado outra mudança importante na maneira como os seres vivos passaram a interagir durante o Cambriano. É o que afirmam Filip Meysman e seus colegas do Instituto de Ecologia da Holanda em artigo na revista científica “Trends in Ecology and Evolution”. O “elo perdido” da Explosão Cambriana poderia ser, segundo eles, a chamada bioturbação – a alteração nos sedimentos do solo terrestre ou marinho causada por bichos que cavam tocas e abrem trilhas, como as minhocas.

Meysman e companhia traçam uma comparação interessante entre o fundo do mar pré-explosão e o pós-explosão. (Nessa época, a vida não-microscópica ainda mal tinha começado a colonizar a terra firme, de forma que o oceano é o que nos interessa mesmo.) Antes da Explosão Cambriana, os poucos e estranhos seres vivos marinhos viviam em comunidades estratificadas, com pouca comunicação entre uma camada e outra do oceano. O solo marinho, em especial, era dominado por “cobertores” de microrganismos, um em cima do outro – cada um deles com um metabolismo específico, sem grande transporte de nutrientes e oxigênio entre as camadas.

Ora, organismos bioturbadores, como vermes, minhocas e afins, colocariam em polvorosa essa estratificação primeva. De repente, começaria a haver uma distribuição muito mais ampla de nutrientes ao longo da camada de sedimento, desde as regiões mais rasas, nas praias inundadas pelas marés, até pedaços mais profundos dos ecossistemas marinhos. Alguns animais poderiam usar o substrato para escavar esconderijos e fugir dos predadores primordiais; esses mesmos caçadores teriam, agora, incentivo para fuçar o leito marinho em busca das presas fujonas.

Outras criaturas, finalmente, poderiam até “comer” a matéria orgânica distribuída de forma heterogênea pelo sedimento, um novo modo de vida que aumentaria ainda mais a diversidade espacial e de nutrientes naquele solo. O resultado combinado de todo esse fuça-fuça e escava-escava seria um ambiente muito mais interessante e diversificado do que a monótona sucessão de camadas que existia antes. Surgiria uma estrutura espacial heterogênea, com micronichos ecológicos abertos à exploração de novas espécies, maior presença de oxigênio (já que a água circularia com freqüência por ali) e, no todo, mais potencial para a vida.

Menos mistério
Se esse ponto de vista estiver correto, o mistério que ainda cerca a Explosão Cambriana fica um pouco menos misterioso. Afinal, o surgimento de uma diversidade de animais sem precedentes teria uma correlação direta com o aparecimento de um ambiente – heterogêneo e cheio de oportunidades, graças à bioturbação – também sem precedentes na história da Terra. Um fenômeno serviria de combustível para o outro.

Excluindo-se o fim dos tapetes microbianos no leito marinho, que outras evidências diretas temos de que a coisa foi mesmo desse jeito? Um dado curioso é que criaturas vermiformes, ou ao menos o rastro delas no fundo do mar ou em águas rasas, parecem preceder em algumas dezenas de milhões de anos a glória máxima da Explosão Cambriana. Ainda é difícil afirmar com certeza, mas criaturas parecidas com minhocas (cujo grupo, os anelídeos, também está registrado na explosão) talvez tenham estado entre os mais antigos animais, cavando, remexendo sedimentos e, sem saber, abrindo caminho para nós.

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