BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina
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sábado, 31 de maio de 2008

Cientistas descobrem 'sapo Wolverine' na África

Anfíbio rasga a própria pele para liberar suas garras. Animal era conhecido há um século, mas só agora está sendo estudado a fundo.


Wolverine, o grande herói dos X-Men, pode ser o melhor no que faz -- mas não é mais o único. Cientistas descobriram que algumas espécies de sapos africanos liberam suas garras rasgando a própria pele. Um comportamento típico do baixinho invocado do grupo de mutantes dos quadrinhos.



Os animais e suas garras já eram conhecidos há um bom tempo. Mas agora o grupo liderado por David Blackburn, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, detalhou como é que eles atacam.

Por quê? Bom, porque David foi atacado. Ao pesquisar a espécie em campo na África, ele percebeu que toda vez que tentava pegar um dos sapos, eles chutavam e arranhavam com força. Foi ali que percebeu algo de diferente. Quando voltou para casa, foi para o museu da universidade e estudou os espécimes preservados que havia no laboratório.

Normalmente, a garra do bicho fica escondida atrás de um pequeno nódulo logo abaixo da ponta dos dedos do animal. Quando ele é atacado, no entanto, ela é lançada, rasgando o nódulo.

Agora, os pesquisadores querem saber se ele também é capaz de outro feito de Wolverine: a regeneração. Toda vez que o herói mutante guarda suas garras, sua pele é regenerada. Os cientistas acreditam que o mesmo pode acontecer com esses animais.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Macacos movem braço mecânico apenas com a força do pensamento

Feito é mais um passo rumo a próteses que funcionam sob comando cerebral. Animal conseguiu se alimentar controlando membro falso como se fosse seu


Um macaco conseguiu se alimentar com líquidos sozinho, controlando os movimentos de seu braço sem derrubar nada. O que é tão especial? O braço do animal era, na verdade, uma prótese mecânica, movida única e exclusivamente por sinais cerebrais. O feito é mais um passo da ciência rumo a próteses para seres humanos que possam ser controladas pelo cérebro, como um membro normal.

O objetivo principal, segundo o autor do estudo, é desenvolver uma prótese que possa ser usada por pessoas com paralisia total. Isso pode ajudar pessoas com doenças neurológicas, como a esclerose lateral amiotrófica, ou com lesões na medula espinhal.




Os macacos do laboratório conseguiram, apenas com a mente, mover um braço mecânico para se alimentarem, enquanto seus próprios braços estavam presos. Segundo os pesquisadores, os animais passam a considerar a prótese uma parte de seu próprio corpo.

Para conseguir isso, os cientistas mapearam e "gravaram" os sinais cerebrais usados pelos animais na hora de se movimentar. Depois, ligaram eletrodos na cabeça dos bichos e ensinaram o computador a interpretar esses sinais para movimentar o braço.

O trabalho desenvolvido por Andrew Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, foi apresentado na revista “Nature”.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Nasa apresenta primeiros resultados científicos de nova sonda marciana


Em entrevista coletiva, cientistas descrevem primeiros resultados. Missão ainda terá muito trabalho pela frente nos próximos 90 dias.

Depois que -- literalmente -- a poeira assentou, os cientistas e engenheiros envolvidos com a missão Phoenix começaram a apresentar os primeiros resultados, junto com as primeiras imagens coloridas coletadas pela sonda na superfície de Marte.

"Podemos ver nas imagens rachaduras no solo, feitas por gelo, o que significa que o solo está ativo", disse Peter Smith, cientista-chefe da missão da Nasa. "Agora, estamos particularmente interessados no que está na nossa área de escavação."

O braço robótico da Phoenix só pode alcançar as regiões mais próximas do local de pouso do veículo (como ele não é um jipe, ele fica parado o tempo todo no mesmo lugar), mas mesmo aí ainda há incertezas -- até agora, apenas fotos numa direção foram tiradas.

Os dados coletados vêm em conta-gotas para a Terra, em razão do esquema de comunicação da sonda com a Terra. A Phoenix é incapaz de transferir dados diretamente para cá; em vez disso, ela precisa enviar os dados a alguma das sondas americanas em órbita (Mars Odyssey ou Mars Reconnaissance Orbiter), que por sua vez disparam as informações para a Terra.

Caso a missão dê certo, terá uma oportunidade única de estudar o gelo marciano -- que tem, além de dióxido de carbono, também água, como seus componentes. Mais que isso, sensores poderão procurar, em meio a essas pedras congeladas, substâncias orgânicas. Seria o próximo passo na busca por vida no planeta vermelho, depois que os jipes Spirit e Opportunity constataram que Marte já teve grandes quantidades de água corrente em sua superfície -- um dos sinais para identificar a habitabilidade de um mundo, segundo os astrobiólogos.

domingo, 25 de maio de 2008

Estudo acha sinais de 'guerra santa' entre pagãos e cristãos na Europa medieval

Túmulo luxuoso indica resistência de elite pagã a cristianização na Alemanha do século 12.
Guerreiros eslavos adoravam deus da guerra de quatro cabeças; luta durou décadas.


Por volta do ano 1100 da nossa era, as tribos eslavas que viviam na fronteira da Alemanha com a Polônia estavam literalmente entre a cruz e a espada. Enfrentando ataques militares e missionários de seus vizinhos cristãos, a elite das tribos parece ter decidido reafirmar sua identidade pagã com túmulos luxuosos, que mostravam seu poderio e sua determinação de resistir ao invasor. Essa é a tese de um arqueólogo alemão, cujo trabalho está ajudando a entender os últimos pagãos da Europa Ocidental.



“Todos os vizinhos deles já tinham virado cristãos e eram governados por reis ou, no caso dos alemães, por um imperador”, explica Felix Biermann, do Departamento de Pré-História da Universidade Humboldt, em Berlim. “Por outro lado, as tribos eslavas dos rúgios, lutícios e obodrítios tinham estruturas políticas descentralizadas. Eles eram comandados por uma elite de guerreiros e cavaleiros, cujo poder era baseado em alianças militares. Esses chefes construíam grandes fortalezas, feitas de madeira e terra e que chegavam a ter até 400 metros de diâmetro”, diz Biermann.

Escavações recentes na Pomerânia (nordeste da Alemanha) e nas regiões polonesas que fazem fronteira com ela revelaram um estranho aumento de sepulturas suntuosas no final do século 11 e começo do século 12. Antes, os membros das tribos eslavas eram simplesmente cremados, mas nessa época eles passam a ser enterrados, alguns deles com muita pompa. Ao analisar vários desses túmulos de elite, como o de Usedom, que fica numa ilha do mar Báltico, Biermann verificou uma série de características comuns.

Primeiro, os túmulos viram uma espécie de “casa” dos mortos, recobertos com estruturas de madeira e pedra e formando “morros” artificiais, que podiam ser vistos a uma certa distância. Em segundo lugar, os defuntos ganham oferendas caras: espadas longas com cabo decorado, moedas de ouro e prata, tecidos finos, esporas de ferro e chicotes (ambos lembretes de sua condição de cavaleiros).


Há também bacias de bronze finamente decoradas, usadas para lavar o rosto e as mãos dos nobres. “É uma maneira de dizer que eles eram uma elite refinada, com hábitos sofisticados à mesa”, afirma o arqueólogo alemão. As mulheres da elite também recebiam ricos presentes em sua viagem para o além-túmulo: anéis e colares de metal precioso e amuletos feitos com dente de castor. Nessa mesma época, parece surgir uma certa separação espacial entre esses túmulos e os dos “plebeus” das tribos – outro sinal de que a elite pagã estava tentando reforçar seu poderio.

E é aí que entra a tese de Biermann. O curioso é que o mesmo fenômeno – o repentino aparecimento de túmulos pagãos suntuosos – acontece justamente antes da conversão dos escandinavos e dos ingleses ao cristianismo, nos século 7 e 10 ou 11, respectivamente. O arqueólogo aposta que o exagero cerimonial entre as tribos eslavas servia para mostrar que o paganismo estava vivo e vigoroso diante da invasão cristã. Também pode haver uma influência indireta de pagãos vikings, que comerciavam com a região durante as décadas anteriores ao surgimento dos túmulos luxuosos.




Tanto é assim que, após um breve florescimento de algumas décadas, a tradição tumular desaparece a partir do último quarto do século 12. É bom lembrar que a orientação da Igreja medieval era não colocar nenhum objeto em túmulos de cristãos – um hábito normalmente associado à crença numa vida após a morte com combates, festas e outras situações iguais às encontradas no mundo dos vivos.

Até essa época, os eslavos da região adoravam deuses capitaneados por Svantevit, um guerreiro divino representado com três ou quatro cabeças (nesse caso, cada uma delas ficava voltada para um dos pontos cardeais), cujo culto também era associado à fertilidade da terra. Não por acaso, Svantevit era retratado com uma espada na mão e um chifre oco (usado como taça) na outra, montado num cavalo branco – mais ou menos como os guerreiros pagãos que o adoravam.



A destruição do templo de Arkona marcou o desaparecimento definitivo do paganismo na Europa Ocidental. No entanto, o culto a divindades não-cristãs continuou resistindo durante quase dois séculos a leste.

“A religião servia como o principal fator de integração dos líderes pagãos. Eles tinham um importante centro conhecido como Rethra, que era uma mistura de fortaleza e oráculo militar, onde eles pediam o apoio dos deuses para a guerra. Esse local foi destruído por volta de 1070 e o centro militar e religioso das tribos se deslocou para o templo de Svantevit num local chamado Arkona”, conta Biermann.

De acordo com o arqueólogo, a resistência em Arkona não durou muito. As pressões para se converter ao cristianismo eram muitas. Uma delas foi a chegada de missionários liderados pelo bispo alemão Otto de Bamberg, que chegaram à Pomerânia em 1124. Cruzados alemães, poloneses e dinamarqueses também organizaram uma série de ataques à área. Finalmente, o templo de Arkona foi atacado pelo rei Waldemar I da Dinamarca.

“Temos boas informações sobre o cerco de Arkona graças à descrição feita pelo monge dinamarquês Saxo Grammaticus. Os pagãos da tribo dos rúgios estavam defendendo os muros da fortaleza, mas um soldado dinamarquês conseguiu abrir um túnel debaixo do portão e colocar fogo na muralha, que veio abaixo. Os homens de Waldemar destruíram o templo e jogaram a imagem de Svantevit no mar”, diz Biermann. “A destruição do templo é considerada um símbolo do triunfo do cristianismo na região.”

Apesar dos combates, não houve um extermínio da população pagã local. Convertidos ao cristianismo, eles acabaram se miscigenando com colonos alemães que chegaram à região no fim do século 12 e começo do século 13. “Alguns dos membros da elite pagã se tornaram cristãos, como os membros da família Greif, que viraram duques e governaram a Pomerânia até o século 17”, conta o arqueólogo alemão.

“No território da Prússia Oriental, que hoje pertence à Rússia e à parte nordeste da Polônia, a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos lançou uma ‘missão com a espada’ a partir dos anos 1230”, diz Felix Biermann. Os Cavaleiros Teutônicos já tinham lutado na Palestina durante as Cruzadas e, com isso, expandiram sua ação contra inimigos da fé na própria Europa. Depois da vitória cristã nessa região, restava ainda uma grande potência pagã na Europa Oriental, a Lituânia. Nesse caso, a política acabou sendo o fator-chave: o grão-duque da Lituânia teve a chance de virar também rei da Polônia caso aceitasse ser batizado para casar com uma princesa polonesa. O grão-duque topou e foi coroado como rei Ladislau I Jagiello.

Em parte pela conversão forçada e em parte pelos interesses políticos envolvidos no processo, os costumes cristãos demoraram para dominar totalmente essa região. “Em Usedom, temos enterros do meio do século 13, no cemitério de uma igreja, que ainda mostram objetos simples mas ligados à tradição pagã, como armas e moedas”, afirma Biermann.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Neurociência pode explicar mistério de jardim "Zen"

Jardim zen


É o tipo de coisa que você tem experimentar por si mesmo, pois é difícil descrever a sensação: passar algumas horas no tablado do templo Ryonji (dragão em paz), em Kyoto, no Japão, contemplando o jardim de pedras. Já até imagino o comentário de alguns: pôxa, mas não tinha nada melhor pra fazer?

O jardim do templo Ryonji é patrimônio mundial declarado pela Unesco e desafia a imaginação de milhares de visitantes todo ano com sua composição abstrata de 15 rochas, espalhadas num retângulo vazio composto por pequenas pedras brancas. Nada de flores, sem fontes e sem árvores. O vazio chama mais a atenção do que o conteúdo.

O templo foi construído por volta de 1450 e parece ter sido reservado para a meditação budista. A construção aconteceu durante um período de revolução nas artes visuais no Japão, na era Muromachi (1333-1573). Ninguém conhece o artista responsável pelo jardim, nem qualquer explicação foi deixada a respeito da disposição das rochas. As pedras de diferentes tamanhos estão dividas em 5 grupos dispersos e, não importa o ângulo do observador, só é possível a visualização de 14 das 15 rochas. Diz a lenda que você só conseguirá observar todas ao mesmo tempo quando atingir o nirvana, a iluminação espiritual decorrente da meditação zen…

Acredita-se que as rochas podem ser simbólicas, representando, por exemplo, uma tigresa atravessando um rio com suas crias. O fato de uma rocha sempre ficar oculta representaria a proteção de um dos filhotes em caso de perigo, garantindo a sobrevivência dos descendentes. Essa seria a verdade oculta ou absoluta, também descrita pelo psicanalista Wilfred Bion como “O”. Segundo Bion, essa verdade “O” seria o caminho para a alucinação consciente ou iluminação. Volto para Bion e o papo-cabeça em breve.

Serenidade
Mas o que intriga os visitantes é a serenidade proporcionada pelo local. Parece que o jardim quer transmitir algo através da aparente distribuição aleatória das rochas no espaço. Em 2002, pesquisadores publicaram na renomada revista científica “Nature” uma possível explicação para o mistério do jardim de Ryonji. O segredo: uma mensagem subliminar escondida na disposição das rochas (Tonder, Lyons e Ejima, 2002).

Os pesquisadores examinaram a estrutura espacial do jardim usando uma metodologia chamada “transformação médio-axial”, muito usada em processamento de imagens e estudos biológicos da visão. O conceito é simples: imagine-se dentro de um carro em movimento num dia de chuva. As gotas nas janelas começam a se mover e vão se agrupando umas com as outras. Chamamos de médio-axiais os pontos de encontro desses caminhos imaginários formados pelo movimento das gotas. Encontrar contornos de objetos em nuvens é uma conseqüência desse processo. Sabe-se que os humanos, inconscientemente, possuem um sensibilidade visual à simetria axial quando expostos a estímulos de formas diversas.

Ao aplicar esse tipo de análise ao jardim, o grupo revelou a imagem de uma árvore oculta, com o tronco posicionado no tablado e os galhos se abrindo simetricamente em direção aos grupos de rochas. Ao impor uma disposição aleatória nas rochas a imagem é perdida, em apoio à idéia de que a disposição original não foi acidental. O artigo sugere que a sensação de bem estar causada pela contemplação do jardim foi projetada com base na física do olho e no inconsciente humano.

Padrões naturais?
Confesso que quando li o artigo não fiquei muito convencido. Pra mim, a beleza do jardim estava simplesmente na sua composição minimalista. Porém, existe uma série de estudos em neurociência demonstrando a capacidade humana de reconhecer padrões naturais em pinturas abstratas. Isso parece acontecer de forma inconsciente e independente de fatores culturais. A percepção de cenários naturais e associação a elementos de natureza orgânica (vegetal e animal) ou inorgânica (geológica ou meteorológica) requer uma capacidade de compreensão altamente intuitiva. Existiria então um código ou uma linguagem comum (o inconsciente coletivo) aos humanos, explorada por artistas abstratos?

Às vezes acho que esse pensamento ou memória comum da espécie humana é a mesma coisa que Bion chamou de verdade universal e outros chamaram de telepatia. Isso poderia explicar o fato de diversas idéias surgirem em diferentes cantos do mundo ao mesmo tempo, de forma independente.

De fato, alguns trabalhos de física teórica como a conexão quântica (também conhecida como conexão de Einstein) prevêem algo semelhante. O fenômeno ajudaria na sobrevivência da espécie, uma vez que garantiria que a humanidade não perdesse uma nova idéia, além de estar sincronizada pra receber um novo conceito. Para que isso tenha sido selecionado evolutivamente, teríamos de encontrar pistas conservadas no genoma.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Nasa tenta pousar sonda neste domingo para achar 'tijolos da vida' em Marte


Phoenix deve descer com retrofoguetes -- técnica que não tem sucesso desde 1976. Espaçonave custou a americanos e canadenses quase meio bilhão de dólares.


Os engenheiros da Nasa terão apenas mais uma oportunidade de ajustar o curso da espaçonave, no sábado. Depois disso, o destino da Phoenix já estará selado, antes mesmos da difícil tentativa de descida no planeta vermelho, marcada para as 20h53 deste domingo (25). O desafio não pode ser subestimado. A equipe da agência espacial americana tem por objetivo realizar uma forma de pouso que foi conduzida com sucesso em Marte pela última vez em 1976 -- 32 anos atrás. Em vez de usar airbags para o contato final com a superfície -- como o fizeram as missões robóticas Mars Pathfinder e Mars Exploration Rovers --, a Phoenix usará retrofoguetes, que devem desacelerar a sonda e permitir que ela pouse suavemente sobre seus três pés. A última sonda a tentar fazer isso foi a americana Mars Polar Lander -- que se espatifou no chão marciano, em 1999, e nunca mais foi vista. Curiosamente, a Phoenix está lá para fazer o que a Polar Lander não conseguiu -- descer numa das regiões mais geladas de Marte. Só que, enquanto a Polar Lander mirou uma área próxima ao pólo sul, a Phoenix tentará a sorte no pólo norte. A Nasa sabe que é uma missão de alto risco. Quanto risco? "Tem muitos cálculos, mas o melhor medidor é dizer que menos de 50% das missões para Marte tiveram sucesso. A missão tem muito risco", disse ao G1 Ramon de Paula, engenheiro brasileiro responsável pela missão no Quartel-General da Nasa, em Washington. Pode acontecer de tudo. A descida é feita automaticamente, e todos os sistemas -- ativação dos pára-quedas, desprendimento do escudo térmico, acionamento dos retrofoguetes -- precisam funcionar na hora certa, com todas as incertezas que a entrada atmosférica em um mundo alienígena traz. Além disso, a Phoenix também precisará de sorte. Com 2,6 metros de comprimento, a sonda pode se quebrar ao meio, se der o azar de cair sobre uma rocha suficientemente grande. Não há como controlar com precisão o local de pouso (no máximo, os engenheiros desenham uma elipse imaginária no solo, e a sonda deve cair em algum ponto daquela área), de modo que o pedregulho fatal é uma real possibilidade. Pedras adjacentes ao local de pouso também podem prejudicar a abertura dos painéis solares, colocando em risco o sucesso da missão. Todas essas emoções, a um custo de quase meio bilhão de dólares (US$ 420 milhões dos EUA, mais US$ 37 milhões vindos do Canadá, que bancou a estação meteorológica instalada a bordo da sonda). Claro que, para arriscar tanto, a Nasa espera recompensas. Caso a missão dê certo, terá uma oportunidade única de estudar o gelo marciano -- que tem, além de dióxido de carbono, também água, como seus componentes. Mais que isso, sensores poderão procurar, em meio a essas pedras congeladas, substâncias orgânicas. Seria o próximo passo na busca por vida no planeta vermelho, depois que os jipes Spirit e Opportunity constataram que Marte já teve grandes quantidades de água corrente em sua superfície -- um dos sinais para identificar a habitabilidade de um mundo, segundo os astrobiólogos. Por ora, entretanto, tudo que a Nasa quer é que a Phoenix pouse com sucesso e envie dados científicos. É um passo crucial para manter o programa de exploração marciana nos trilhos, já que o futuro não parece particularmente animador no planejamento da agência a partir da próxima década.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Pesquisadores acham 'cidade' de estrelas-do-mar na Antártida


Colônia fica em uma cordilheira submarina do continente de gelo.
No local vivem dezenas de milhões de indivíduos da espécie.

Um grupo de cientistas descobriu no pico de uma das cordilheiras marinhas que rodeiam a Antártida uma gigantesca colônia de estrelas-do-mar, que recebeu o nome de "Cidade das Estrelas", e que desafia os conhecimentos tradicionais das montanhas marítimas.

Pesquisadores da Austrália e da Nova Zelândia inscritos no Centro da Vida Marinha - um projeto que recolhe informação sobre todas as formas de vida que existem nos oceanos - apresentaram os primeiros resultados de sua expedição à cordilheira Macquarie, que se estende do sul da Nova Zelândia até o continente antártico.

sábado, 17 de maio de 2008

Para primatas pequeninos, vale mais a pena escalar do que andar

Experimento mostrou que bichos pequenos gastam mesma energia subindo ou andando. Já maiores tendem a 'economizar' esforço caminhando; dados têm implicações evolutivas.




Jandy Hanna montou uma academia um tanto esquisita num laboratório da Universidade Duke (EUA). Em vez de gente querendo perder pneuzinhos, quem malhava ali eram alguns dos primatas mais esquisitos do mundo, como os lóris e os lêmures, além do macaco-de-cheiro, velho conhecido de quem vive na Amazônia. O objetivo era entender a capacidade de subir em árvores, uma das características mais marcantes desses primos da humanidade, e o resultado foi surpreendente: escalar não "custa" mais energia do que andar -- principalmente se você não é muito grande.
A pesquisa, que está na edição desta semana da revista especializada americana "Science", mostra que, por outro lado, andar no chão começa a valer a pena conforme o tamanho do primata em questão aumenta. É que, com o tamanho maior, a anatomia do animal compensa o esforço de caminhar com uma necessidade menor de forçar os músculos. Isso quer dizer que, se todo o resto for igual, um primata grandalhão tem mais chances de se adaptar à vida terrestre.
É claro que há exceções a essa regra -- como os orangotangos, que são tão grandes e pesados quanto o ser humano e, mesmo assim, passam a maior parte do tempo no alto das árvores. "Vai haver sempre uma relação custo-benefício", disse Hanna ao G1. "Nesse caso, o gasto de energia ligado à necessidade de escalar pode ser compensado pela presença de frutos muito nutritivos no alto das árvores, ou outros fatores", afirma a pesquisadora americana.





Para chegar aos resultados relatos na "Science", os pesquisadores colocaram os primatinhas -- com tamanho que ia de 150 gramas a quase 1,5 kg -- para escalar uma "corda rolante" no interior de uma câmara especial, ao longo de cerca de meia hora. Durante a tarefa, os cientistas iam medindo a taxa de consumo de oxigênio dos bichos nesse ambiente, o que dá uma medida confiável do esforço que eles estão fazendo.Foi com essa técnica que Hanna e companhia verificaram que escalar exige sempre o mesmo gasto proporcional de energia, independente do tamanho do animal -- provavelmente porque ele está brigando apenas com a força da gravidade. Por outro lado, o gasto energético tendia a diminuir se o tamanho da espécie envolvida aumentava.




Os pesquisadores americanos acham que os resultados podem ter implicações para a própria origem dos primatas. Acontece que os mais antigos membros do nosso grupo, segundo muitos paleontólogos, eram bichos com menos de meio quilo de peso. Com esse tamanho, eles não teriam tido custos metabólicos extras para conseguir colonizar a copa das árvores e buscar frutinhos nos ramos mais finos, facilitando sua diversificação nesse ambiente até hoje.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Universo é duas vezes mais brilhante do que se pensava


Poeira esconde cerca da metade da luz emitida pelos corpos celestes. Brilho detectado pelos telescópios não conta tudo sobre o Cosmos.

O Universo é na verdade duas vezes mais brilhante do que se pensava, porque a poeira cósmica bloqueia pelo menos metade da luz que o Cosmos gera. O surpreendente resultado foi apresentado por cientistas alemães e australianos na revista especializada Astrophysical Journal Letters deste mês. O fato do Universo ser povoado por grãos de poeira era conhecido há tempos pelos astrônomos. O que ninguém imaginava era que eles seriam capazes de atrapalhar tanto -- impedindo mesmo a luz emitida por galáxias próximas de chegar em sua totalidade até aqui.
"É até poético que para descobrir toda a glória de nosso Universo nós primeiro tivemos que apreciar coisas tão pequenas", afirmou Alister Graham, da Universidade de Tecnologia Swinburne, na Austrália.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Pesquisa européia incrimina gordura trans em câncer de mama


Trabalho, feito por franceses, envolveu milhares de mulheres em dez países da Europa.Ômega-3, gordura 'boa' encontrada em alguns peixes, não contrabalança efeitos ruins.




As mulheres com altos índices de gordura trans no sangue têm risco dobrado de sofrer de tumor de mama. O resultado veio de um estudo sobre as relações entre nutrição e câncer. Realizado em dez países de toda a Europa, o trabalho envolve mais de 500 mil mulheres.
As gorduras trans surgem através de uma alteração na composição das gorduras que irão entrar no processo de industrialização dos alimentos. O principal objetivo de sua utilização é aumentar a duração dos alimentos. A partir dos anos 1990, começaram a surgir evidências científicas que ligam as gorduras trans aos problemas cardiovasculares. Os resultados foram tão impactantes que as mesmas gorduras trans foram banidas, por força de lei, em vários locais do mundo.
Pesquisadores franceses correlacionaram os resultados de amostras de sangue de 10 mil mulheres, colhidas entre 1995 e 1998, com os registros de casos de câncer. Várias susbstâncias haviam sido mensuradas nas amostras, justamente para buscar marcadores que servissem para prever doenças. Os níveis de gordura trans estavam entre esses índices, e se mostraram significativamente elevados nas mulheres que desenvolveram tumores malignos da mama. Os resultados mostraram que o risco de sofrer de câncer de mama era quase o dobro nas mulheres que consumiam muita comida industrializada. Outro dado apontado pela pesquisa foi que ômega-3, um outro tipo de gordura, não traz proteção contra o mesmo câncer de mama. Pesquisas realizadas na Ásia haviam mostrado que, para aquelas mulheres, níveis mais altos de ômega-3 diminuíam o risco de ter câncer. O que as pesquisas francesas demonstraram é que o segredo é mais do que eliminarmos um determinado tipo de componente dos alimentos. A chave está no consumo de alimentos o mais naturais possíveis e numa dieta equilibrada.

sábado, 10 de maio de 2008

Imagem de folha pode ser 'foto mais antiga do mundo'


Desenho fotogênico foi retirado de leilão da Sotheby's em NY para investigação.


A imagem de uma folha impressa em um papel sensível à luz pode ser a fotografia mais antiga do mundo, segundo especialistas.

A imagem - chamada de desenho fotogênico - estava para ser leiloada pela Sotheby's, em Nova York, mas acabou sendo retirada do leilão para que o assunto seja devidamente investigado.O desenho fotogênico foi criado colocando uma folha sobre um papel sensível à luz e o expondo ao sol.

Acreditava-se que a imagem havia sido criada em 1839, por William Henry Fox Talbot, considerado, juntamente com Louis-Jacques-Mandé Daguerre, o pai da fotografia moderna.

Mas, agora, há suspeitas de que a imagem pode ter ser sido criada mais de 30 anos antes, por volta de 1805.

"Depois da publicação do católogo para a venda da Quillan Collection, especialistas em fotografia iniciaram um intenso debate sobre as origens da folha", disse a diretora do departamento de fotografia da Sotheby's, Denise Bethel.

Depois de inspecionar a imagem, o especialista Larry Schaaf encontrou um "W", indicando, na opinião dele, que o trabalho pode ser obra de Thomas Wedgwood, filho de Josiah Wedgwood, fundador de uma famosa casa de porcelanas inglesa.

Thomas Wedgwood teria realizado experimentos com fotografia a partir de 1790, mas nenhuma das obras teria sido ainda identificada.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero

Veneno em 'espora' do animal usa mesmas bases bioquímicas da peçonha de cobra.Genes relacionados a aves e até a peixes convivem com DNA típico de mamíferos.


Se você achava o ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus) esquisito, é porque nunca tinha visto o genoma do bicho. Até agora, lógico, porque um consórcio internacional de pesquisadores acaba de obter a seqüência completa de "letras" químicas do mais estranho dos mamíferos. Os dados estão na edição desta semana da revista científica "Nature", uma das mais prestigiosas do mundo.


O trabalho, coordenado por Wesley Warren, da Universidade Washington em Saint Louis (Estados Unidos), traz informações que vão ser úteis para qualquer pesquisador interessado nas origens e na evolução dos mamíferos. Em parte, isso se deve à própria condição de "fóssil vivo" dos ornitorrincos e suas primas, as equidnas. Eles são os últimos remanescentes no planeta de um grupo de mamíferos que ainda botam ovos, tal como faziam seus ancestrais reptilianos. Calcula-se que a linhagem do bicho tenha se separado da dos demais mamíferos há uns 170 milhões de anos, quando o reinado dos dinossauros na Terra tinha apenas começado.

Esse lado conservador não significa, no entanto, que os ornitorrincos tenham parado no tempo. Na verdade, são bichos altamente especializados, cujo bico de pato, pés palmados e cauda de castor surgiram em épocas (relativamente) recentes como adaptação para a vida de caçadores de invertebrados aquáticos. Como nada em águas muito barrentas na Austrália, a criatura desenvolveu uma espécie de "sexto sentido" elétrico, que lhe permite localizar suas presas em condições de visibilidade zero.

Mistureba genômica
O DNA da criatura é composto por cerca de 1,85 bilhão de pares de "letras" químicas, cerca de dois terços do genoma humano, embora o número de genes seja quase igual -- em torno de 20 mil. O curioso é ver, nessa grande massa de moléculas, diversos exemplos de que os ornitorrincos retiveram características genéticas que sumiram nos humanos e demais mamíferos mas existem em aves, répteis e até peixes.

Como os bichos são ovíparos, os pesquisadores descobriram que estão conservados em seu genoma os códigos para a produção de proteínas nutritivas para os ovos, com similares que só são encontrados fora do grupo dos mamíferos -- nas galinhas e no peixe conhecido como paulistinha, por exemplo.

Os "ferrões" localizados nas esporas dos ornitorrincos produzem um veneno que, segundo os dados do genoma, utiliza a mesma "matéria-prima" dos venenos de répteis. O curioso, no entanto, é que ele usa novas versões de genes antigos para produzir a peçonha -- quase como se a espécie tivesse "descoberto" a idéia do veneno independentemente. (Trata-se apenas de uma comparação: afinal, a evolução não acontece forma consciente.)

Por outro lado, o DNA do ornitorrinco também mostra que se trata de um mamífero extremamente bem-adaptado a seu modo de vida único. Embora não tenha mamilos, o bicho produz um leite cuja composição nutritiva não fica nem um pouco atrás do leite humano ou de vaca. Os genes ligados ao sistema de defesa do organismo são numerosos e potentes, provavelmente para ajudar os filhotes muito precoces da espécie a não pegarem infecções. E os genes associados ao sistema olfativo também surpreendem pela quantidade -- é possível que ele consiga sentir "cheiros" debaixo d'água com eles.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Argentinos e brasileiro usam novo método para traçar genealogia do homem

Grupo examinou matematicamente crânios de ancestrais da nossa espécie e humanos.
Abordagem pode ajudar a resolver dúvidas sobre parentesco entre hominídeos.


A expressão é um tanto complicada, mas vale a pena anotá-la: morfometria geométrica. Esse é o nome do método matemático empregado por quatro bioantropólogos argentinos e um brasileiro para traçar uma nova ordem genealógica dos hominídeos, o grupo de grandes macacos que inclui o homem moderno e todos os seus ancestrais diretos. Trata-se de uma abordagem inovadora que pode, no futuro, resolver algumas das dúvidas cabeludas que ainda pairam sobre a origem de nossa linhagem.
O trabalho, capitaneado por Rolando González-José, do Centro Nacional Patagônico, e Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP, sairá na revista científica britânica "Nature", uma das mais prestigiosas do mundo. González-José e Neves, assim como o também argentino Héctor Puciarelli (co-autor da atual pesquisa), já haviam trabalhado juntos em estudos sobre os crânios dos mais antigos habitantes da América.
Os primeiros americanos, porém, são todos membros plenos da nossa espécie, Homo sapiens. A equipe agora está aplicando algumas das mesmas técnicas à investigação das características cranianas de boa parte dos ancestrais do homem, desde o Australopithecus afarensis, que viveu lá se vão mais de 3 milhões de anos.

Da parte ao todo

No artigo da "Nature", a equipe aponta um problema significativo nos estudos anatômicos sobre os nossos ancestrais: a falta de visão de conjunto. É que as árvores genealógicas evolutivas normalmente envolvem a análise de um sem-número de características separadas, que podem ou não estar presentes em cada uma das espécies analisadas. São coisas como presença ou ausência do terceiro molar, esmalte fino versus esmalte espesso nos dentes, e por aí vai. É assim, meio na base do tudo ou nada para cada característica, que funciona o método cladístico, o mais empregado para esse tipo de trabalho.
Só tem um problema: muitas características importantes para determinar o parentesco entre espécies -- principalmente as muito próximas das outras, como é o caso dos hominídeos -- não funcionam desse jeito. Na verdade, elas variam de forma contínua: uma espécie tem os ossos da face um pouco mais projetados para a frente do que outra, por exemplo, mas todas têm os mesmíssimos ossos. Como a morfometria geométrica é uma forma matemática de medir justamente esse tipo de variação contínua, a equipe achou que estava na hora de uni-la à cladística.
"A união dos métodos foi algo totalmente esperado, saudável e necessário", declarou González-José ao G1. "Creio que muitas análises futuras deverão fortalecer esse tipo de ponte entre as metodologias." Assim, em vez de analisar traços separados, os pesquisadores se concentraram em quatro "módulos" ou conjuntos gerais de características do crânio: flexão da base craniana, retração facial (o quanto a parte da frente do crânio se projetava para a frente), globularidade neurocranial (grosso modo, o quão arredondada era a cabeça dos hominídeos) e forma do aparato de mastigação.




Esperado e inesperado

Metodologia à parte, os resultados preliminares obtidos pela análise são, em si, um bocado interessantes. De um lado, ela confirma o que a maioria dos antropólogos diz há tempos: os neandertais são uma espécie totalmente separada da nossa. O interessante é o quão distantes eles podem ser.
Em uma das submetodologias empregas por Neves, González-José e companhia, a linhagem que vai dar origem ao Homo sapiens se diferencia muito cedo dos demais hominídeos, incluindo criaturas que costumam ser consideradas nossas ancestrais diretas, como o Homo erectus. Em outra, estamos mais próximos dos neandertais, mas ainda assim separados. "A primeira posição [mais distante] certamente é algo controversa, mas é a mais fiel à natureza da variação no crânio", afirma González-José.
A nova árvore genealógica também salva a pele do Homo habilis, que para alguns autores não mereceria ser incluído no nosso gênero por ser primitivo demais -- de acordo com esses pesquisadores, o hominídeo deveria estar entre os australopitecos. Não é o que a nova pesquisa aponta. E ela também sugere que, entre os próprios australopitecos e assemelhados, está havendo uma certa confusão.
É que essas criaturas normalmente são divididas em dois grupos: robustos (com mandíbula pesada, adaptada aparentemente a comer vegetais duros) e gráceis (provavelmente comedores de alimentos menos abrasivos e um pouco de carne). A análise da equipe diz, pelo contrário, que os dois grupos não refletem o parentesco entre as espécies: alguns gráceis estariam mais próximos dos robustos do que dos outros gráceis, e vice-versa.
Agora, resta saber como ajustes na técnica trarão novas formas de enxergar a relação entre os diversos ancestrais humanos. "Estamos trabalhando nisso", diz González-José.


domingo, 4 de maio de 2008

Patas surgiram para nadar, e não para andar

Coluna 'Visões da Vida' ataca preconceitos comuns sobre origem dos bichos terrestres.



Se um dia eu tivesse de fazer uma lista de dez mandamentos da ciência, o primeiro e mais importante de todos provavelmente seria: “Não imporás teus próprios preconceitos à natureza”. Caso ele fosse seguido à risca, 90% das escorregadas científicas da história teriam sido evitadas. Mas cientista também é gente, o que significa ficar enredado, volta e meia, nas intuições completamente naturais – e factualmente erradas – da nossa espécie. Tomemos um caso clássico: por que os vertebrados desenvolveram patas? Durante muito tempo, a resposta científica padrão foi aquela que todos nós daríamos sem pestanejar: para andar na terra, ué. Próxima pergunta?

No entanto, a resposta óbvia está um bocado longe da verdade, e vem levando um zero da natureza há algumas décadas. Escavando fósseis em regiões remotas do globo ou recuperando-os nos baús de museus, os paleontólogos estão traçando um quadro incrivelmente detalhado da origem dos nossos braços e pernas. O fato é que alguns peixes “criaram” patas não para se locomover em terra firme, mas como uma ferramenta para enfrentar um determinado tipo de ambiente aquático. Caminhar com elas foi, desse ponto de vista, apenas uma aplicação secundária de um órgão que já estava pronto, ao menos em suas linhas gerais.

Quase todo mundo já viu aquelas animações sobre a transição “da água à terra” dos vertebrados (eu me lembro de uma fofíssima, de massinha de modelar e técnica “stop and motion”, na qual o peixinho fica encalhado na praia e ganha patas). Esses desenhos animados são uma apresentação simplificada do cenário proposto originalmente pelo paleontólogo americano Alfred Romer nos remotos anos 1950.

Com poucos dados fósseis diretos sobre a transição entre vertebrados d'água e vertebrados da terra (os chamados tetrápodes, ou “de quatro patas”, em grego), Romer se pôs a elocubrar. Ele sugeriu que, em condições periódicas de seca, alguns peixes teriam ficado sem seu meio natural. Usando nadadeiras musculosas, como as dos atuais celacantos e peixes pulmonados, alguns desses bichos teriam conseguido se arrastar de poça em poça, recuperando o elemento respirável. Com o tempo, os animais mais bem-sucedidos na proverbial luta pela sobrevivência eram aqueles cujas nadadeiras tinham melhor capacidade de locomoção a pé enxuto, por assim dizer. E voilà: nascem as patas.

Problema de continuidade
Romer até tinha algumas pistas intrigantes para construir esse roteiro, como a existência moderna de peixes que conseguem extrair oxigênio do ar emergencialmente ou o fato de que alguns deles realmente conseguem usar as nadadeiras para se arrastar em terra. Mas ele não tinha como enxergar esse processo realmente acontecendo porque só havia pontas soltas no registro fóssil.

De um lado estava o Eusthenopteron (retratado na ilustração acima), um peixe de nadadeiras musculosas; e, do outro, havia o Ichthyostega, um tetrápode “pronto” demais para que fosse possível detalhar a transição entre uma forma e outra. Os fósseis estavam espalhados por um período que ia de 400 milhões a 350 milhões de anos atrás – pouco menos que o tempo que nos separa dos dinossauros.

A coisa começou a mudar de figura no fim dos anos 1980, quando veio à tona o esqueleto pós-craniano – ou seja, do pescoço para baixo – do tetrápode primitivo Acanthostega (veja a reconstrução abaixo), que viveu na Groenlândia há uns 360 milhões de anos. O bicho tinha, para começar, quatro membros bem formados, só que com oito dedos cada. A estrutura desses membros, no entanto, era muito parecida com a de remos, sendo incapaz de apoiar o peso do bicho se ele quisesse ficar de pé.

Continue a nadar
De quebra, havia duas outras adaptações aquáticas claras: uma cauda que aparentemente terminava numa nadadeira e brânquias totalmente funcionais, embora o bicho também mostrasse sinais de que usava a respiração pulmonar quando isso era necessário. No conjunto, a única conclusão razoável a se tomar era que os membros desse bicho tinham sido “projetados” pela seleção natural para a vida na água, e não na terra.

A partir daí, os estudos sobre tetrápodes que documentam a transição água-terra não parou mais, em parte porque as características do Acanthostega ajudaram os cientistas a identificar bichos aparentados mesmo quando o esqueleto não era tão completo ou até tinha ficado pegando poeira num museu durante décadas. Isso permitiu criar um quadro geral bastante preciso, e surpreendente, dos primeiros vertebrados com patas.

A característica mais misteriosa deles são os oito, sete ou seis dedos – hoje, nenhum bicho terrestre nasce com mais de cinco dedos, nosso número “mágico”, sabe-se lá o porquê. (Alguns pesquisadores falam em capacidade de apoio aos membros dada por esse número de dígitos.) Invariavelmente, esses bichos vêm de rochas de origem aquática, em geral de água doce, têm tamanho considerável – um metro ou mais de comprimento – e são predadores.

Duzentas flexões, tetrápode!
Essa descrição geral ainda deixa de fora o enigma dos enigmas, ou seja, o surgimento das patas. Os achados mais recentes mostram que parece haver uma correlação entre os ambientes desses bichos e as transformações em seus membros e crânios. De forma muito resumida, pode-se dizer que eles viviam em águas rasas, cheias de vegetação e matéria orgânica, onde era difícil extrair oxigênio. A solução? Respirar mais ar, é claro.

Para fazer isso, os membros parecem ter funcionado como uma espécie de “apoio para flexões” - o bicho simplesmente usava as patas da frente para erguer a cabeça acima do nível da água. Esse mesmo movimento, igual ao de um humano fazendo flexões, por exemplo, ajudaria o bicho a se estabilizar n'água enquanto tentava capturar suas presas. As alterações foram acompanhadas por mudanças que favoreceram a respiração aérea, e outras na ligação da cabeça com o resto do corpo: surgia o pescoço!

O mais recente tijolinho a se integrar a esse edificio cada vez mais sólido de idéias é o Tiktaalik (retratado na imagem que abre esta coluna). Esse bicho do Canadá foi carinhosamente batizado de “peixápode” (mistura de peixe com tetrápode. Pegou?) por um de seus descobridores, o americano Neil Shubin. Entre as características importantes do bicho, que teria vivido há uns 380 milhões de anos, está a ausência de dedos, mas a presença de pescoço e de um rudimento de “pulso” nas nadadeiras. Ou seja, mesmo sem dígitos de verdade, a criatura já seria capaz de fazer as tais flexões.

Moral da história
Começamos esta breve exposição sobre a origem das nossas pernas e braços com uma exortação contra o preconceito evolutivo, e me parece importante voltarmos a ela. Uma das lições que estamos aprendendo com os tetrápodes primitivos é que um aparente “objetivo” evolutivo - andar em terra firme – tem pouco a ver com o que as criaturas individuais estão fazendo em determinado momento. Seu único interesse é usar todos os meios necessários para seguir o imperativo número 1 da vida, “crescei e multiplicai-vos” - mesmo que para isso elas tenham de usar os membros para nadar e fazer flexões, e não para o que eles “deveriam” fazer, que é andar, segundo a nossa perspectiva humana limitada.

Finalmente, é bom ter em conta que a evolução é um arquiteto fissurado em reciclagem. Os órgãos que possuímos hoje podem parecer estar profundamente adaptados às suas funções atuais, mas nada garante que eles tenham aparecido para desempenhar tarefas profundamente diferentes. Foram cooptados, milhões de anos depois, para fazer outras coisas, mas as marcas de sua origem tendem a continuar visíveis.

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PS – Esta é a primeira de uma série de colunas que abordarão os famigerados “elos transicionais” – as espécies fósseis que registram de forma detalhada alterações anatômicas ligadas ao surgimento de novos grupos de seres vivos. Muita gente desinformada (ou, pior ainda, mal-intencionada) diz por aí que os elos transicionais não existem, e que a dificuldade de achá-los é o calcanhar-de-aquiles da teoria evolutiva. Minha tarefa nas próximas semanas é mostrar que eles estão falando bobagem.

sábado, 3 de maio de 2008

Bebê passarinho também faz ‘gugu-dadá’, afirma estudo

Americanos acharam circuito do cérebro que se especializa em orientar 'balbucio' das aves. Descoberta pode indicar que aprendizado envolve regiões específicas do órgão.

Os filhotes de diamante-mandarim (Taeniopygia guttata), a simpática espécie de pássaro na foto abaixo, não são muito diferentes dos bebês humanos em pelo menos um quesito: antes de aprender a falar (cantar, no caso), eles balbuciam, num equivalente do nosso popular "gugu-dadá". Um trio de pesquisadores americanos descobriram que, para isso, os bichinhos usam um circuito cerebral especializado, o que pode mudar algumas idéias importantes sobre como o cérebro "aprende" as coisas.



O trabalho, coordenado por Michale S. Fee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, está na edição desta semana da revista especializada "Science". Fee e seus colegas estudaram três fases do desenvolvimento dos pássaros: a que poderíamos chamar de "gugu-dadá" (de 30 a 45 dias depois do nascimento), quando os sons que produzem são um balbucio desordenado; a de "adolescente" (de 45 a 80 dias de vida), quando os filhotes começam a dominar o canto, mas ainda o empregam de forma muito variável; e, finalmente, a de adulto, na qual o canto é altamente estruturado e estereotipado. Nela, os bichos seguem seqüências precisas de sons, com "refrão" e "estrofes" que se repetem de forma padronizada.

Fee e companhia se dedicaram a estudar o papel de diversas áreas cerebrais na produção do canto do diamante-mandarim, ave ornamental um bocado comum nas gaiolas brasileiras, embora seja de origem asiática e ocorra também na Austrália. A atenção deles se centrou na "fiação" do chamado centro vocal superior (HVC), na sigla inglesa. Sabia-se que o HVC é crucial para a produção do canto "profissional" dos adultos. Seria usado também para emitir o "gugu-dadá"?

De volta à infância

Para investigar isso, os pesquisadores usaram diversas técnicas, tanto cirúrgicas quanto farmacológicas, para "desligar" o HVC. O interessante é que esse teste não só não impediu os passarinhos-bebês de "balbuciar" à vontade -- eles continuaram plenamente capazes disso -- como também induziu os adultos a voltarem a cantar como filhotes. Se as substâncias usadas para bloquear o funcionamento do HVC não eram mais dadas aos bichos adultos, eles voltavam a "falar como gente grande".

Em entrevista ao podcast da "Science", Fee comparou o balbucio dos passarinhos aos movimentos musculares involuntários que os filhotes usam para, gradualmente, controlar a ação de seus músculos. Antes, acreditava-se que os mesmos circuitos cerebrais eram usados para controlar as ações infantis e as ações maduras -- a diferença seria apenas de treinamento. Se a nova pesquisa estiver correta, o certo será dizer que os organismos possuem regiões cerebrais especializadas para o aprendizado e para a ação "real".

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Arqueólogos encontram tesouros da Era dos Descobrimentos no fundo do mar

Navio afundado tem canhões, instrumentos e moedas de ouro portuguesas e espanholas. Cientistas acreditam que expedição era contemporânea de Colombo e Vasco da Gama




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