Se um dia eu tivesse de fazer uma lista de dez mandamentos da ciência, o primeiro e mais importante de todos provavelmente seria: “Não imporás teus próprios preconceitos à natureza”. Caso ele fosse seguido à risca, 90% das escorregadas científicas da história teriam sido evitadas. Mas cientista também é gente, o que significa ficar enredado, volta e meia, nas intuições completamente naturais – e factualmente erradas – da nossa espécie. Tomemos um caso clássico: por que os vertebrados desenvolveram patas? Durante muito tempo, a resposta científica padrão foi aquela que todos nós daríamos sem pestanejar: para andar na terra, ué. Próxima pergunta?
No entanto, a resposta óbvia está um bocado longe da verdade, e vem levando um zero da natureza há algumas décadas. Escavando fósseis em regiões remotas do globo ou recuperando-os nos baús de museus, os paleontólogos estão traçando um quadro incrivelmente detalhado da origem dos nossos braços e pernas. O fato é que alguns peixes “criaram” patas não para se locomover em terra firme, mas como uma ferramenta para enfrentar um determinado tipo de ambiente aquático. Caminhar com elas foi, desse ponto de vista, apenas uma aplicação secundária de um órgão que já estava pronto, ao menos em suas linhas gerais.
Quase todo mundo já viu aquelas animações sobre a transição “da água à terra” dos vertebrados (eu me lembro de uma fofíssima, de massinha de modelar e técnica “stop and motion”, na qual o peixinho fica encalhado na praia e ganha patas). Esses desenhos animados são uma apresentação simplificada do cenário proposto originalmente pelo paleontólogo americano Alfred Romer nos remotos anos 1950.
Com poucos dados fósseis diretos sobre a transição entre vertebrados d'água e vertebrados da terra (os chamados tetrápodes, ou “de quatro patas”, em grego), Romer se pôs a elocubrar. Ele sugeriu que, em condições periódicas de seca, alguns peixes teriam ficado sem seu meio natural. Usando nadadeiras musculosas, como as dos atuais celacantos e peixes pulmonados, alguns desses bichos teriam conseguido se arrastar de poça em poça, recuperando o elemento respirável. Com o tempo, os animais mais bem-sucedidos na proverbial luta pela sobrevivência eram aqueles cujas nadadeiras tinham melhor capacidade de locomoção a pé enxuto, por assim dizer. E voilà: nascem as patas.
Problema de continuidade
Romer até tinha algumas pistas intrigantes para construir esse roteiro, como a existência moderna de peixes que conseguem extrair oxigênio do ar emergencialmente ou o fato de que alguns deles realmente conseguem usar as nadadeiras para se arrastar em terra. Mas ele não tinha como enxergar esse processo realmente acontecendo porque só havia pontas soltas no registro fóssil.
De um lado estava o Eusthenopteron (retratado na ilustração acima), um peixe de nadadeiras musculosas; e, do outro, havia o Ichthyostega, um tetrápode “pronto” demais para que fosse possível detalhar a transição entre uma forma e outra. Os fósseis estavam espalhados por um período que ia de 400 milhões a 350 milhões de anos atrás – pouco menos que o tempo que nos separa dos dinossauros.
A coisa começou a mudar de figura no fim dos anos 1980, quando veio à tona o esqueleto pós-craniano – ou seja, do pescoço para baixo – do tetrápode primitivo Acanthostega (veja a reconstrução abaixo), que viveu na Groenlândia há uns 360 milhões de anos. O bicho tinha, para começar, quatro membros bem formados, só que com oito dedos cada. A estrutura desses membros, no entanto, era muito parecida com a de remos, sendo incapaz de apoiar o peso do bicho se ele quisesse ficar de pé.
Continue a nadar
De quebra, havia duas outras adaptações aquáticas claras: uma cauda que aparentemente terminava numa nadadeira e brânquias totalmente funcionais, embora o bicho também mostrasse sinais de que usava a respiração pulmonar quando isso era necessário. No conjunto, a única conclusão razoável a se tomar era que os membros desse bicho tinham sido “projetados” pela seleção natural para a vida na água, e não na terra.
A partir daí, os estudos sobre tetrápodes que documentam a transição água-terra não parou mais, em parte porque as características do Acanthostega ajudaram os cientistas a identificar bichos aparentados mesmo quando o esqueleto não era tão completo ou até tinha ficado pegando poeira num museu durante décadas. Isso permitiu criar um quadro geral bastante preciso, e surpreendente, dos primeiros vertebrados com patas.
A característica mais misteriosa deles são os oito, sete ou seis dedos – hoje, nenhum bicho terrestre nasce com mais de cinco dedos, nosso número “mágico”, sabe-se lá o porquê. (Alguns pesquisadores falam em capacidade de apoio aos membros dada por esse número de dígitos.) Invariavelmente, esses bichos vêm de rochas de origem aquática, em geral de água doce, têm tamanho considerável – um metro ou mais de comprimento – e são predadores.
Duzentas flexões, tetrápode!
Essa descrição geral ainda deixa de fora o enigma dos enigmas, ou seja, o surgimento das patas. Os achados mais recentes mostram que parece haver uma correlação entre os ambientes desses bichos e as transformações em seus membros e crânios. De forma muito resumida, pode-se dizer que eles viviam em águas rasas, cheias de vegetação e matéria orgânica, onde era difícil extrair oxigênio. A solução? Respirar mais ar, é claro.
Para fazer isso, os membros parecem ter funcionado como uma espécie de “apoio para flexões” - o bicho simplesmente usava as patas da frente para erguer a cabeça acima do nível da água. Esse mesmo movimento, igual ao de um humano fazendo flexões, por exemplo, ajudaria o bicho a se estabilizar n'água enquanto tentava capturar suas presas. As alterações foram acompanhadas por mudanças que favoreceram a respiração aérea, e outras na ligação da cabeça com o resto do corpo: surgia o pescoço!
O mais recente tijolinho a se integrar a esse edificio cada vez mais sólido de idéias é o Tiktaalik (retratado na imagem que abre esta coluna). Esse bicho do Canadá foi carinhosamente batizado de “peixápode” (mistura de peixe com tetrápode. Pegou?) por um de seus descobridores, o americano Neil Shubin. Entre as características importantes do bicho, que teria vivido há uns 380 milhões de anos, está a ausência de dedos, mas a presença de pescoço e de um rudimento de “pulso” nas nadadeiras. Ou seja, mesmo sem dígitos de verdade, a criatura já seria capaz de fazer as tais flexões.
Moral da história
Começamos esta breve exposição sobre a origem das nossas pernas e braços com uma exortação contra o preconceito evolutivo, e me parece importante voltarmos a ela. Uma das lições que estamos aprendendo com os tetrápodes primitivos é que um aparente “objetivo” evolutivo - andar em terra firme – tem pouco a ver com o que as criaturas individuais estão fazendo em determinado momento. Seu único interesse é usar todos os meios necessários para seguir o imperativo número 1 da vida, “crescei e multiplicai-vos” - mesmo que para isso elas tenham de usar os membros para nadar e fazer flexões, e não para o que eles “deveriam” fazer, que é andar, segundo a nossa perspectiva humana limitada.
Finalmente, é bom ter em conta que a evolução é um arquiteto fissurado em reciclagem. Os órgãos que possuímos hoje podem parecer estar profundamente adaptados às suas funções atuais, mas nada garante que eles tenham aparecido para desempenhar tarefas profundamente diferentes. Foram cooptados, milhões de anos depois, para fazer outras coisas, mas as marcas de sua origem tendem a continuar visíveis.
-------
PS – Esta é a primeira de uma série de colunas que abordarão os famigerados “elos transicionais” – as espécies fósseis que registram de forma detalhada alterações anatômicas ligadas ao surgimento de novos grupos de seres vivos. Muita gente desinformada (ou, pior ainda, mal-intencionada) diz por aí que os elos transicionais não existem, e que a dificuldade de achá-los é o calcanhar-de-aquiles da teoria evolutiva. Minha tarefa nas próximas semanas é mostrar que eles estão falando bobagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário